Veneza abre seus canais, palácios e jardins para a mais antiga Bienal de Artes. A edição de número 57, inaugurada no dia 13 de maio, confirma a exposição como uma das mais concretas dos últimos tempos. O tema “Viva Arte Viva” tornou-se um concentrado de ideias nem tanto revolucionárias e um mosaico de quadros, esculturas, filmagens e instalações muito analógicas e pouco tecnológicas. Ou seja, a prioridade foi dada à criatividade em si e sem o apoio dos diabólicos instrumentos de vanguarda que, muitas vezes, funcionam com uma cortina de fumaça para esconder a falta de imaginação. As obras expostas, em sua grande maioria, para não dizer em sua totalidade, são frutos de muito talento, suor e de tantas mãos na massa.

Resumo da ópera: poucos “pixels” e muita matéria. A curadoria da francesa Christine Macel espalhou a mostra pelo Pavilhão Central, pelo Jardim da Virgens e ao longo do Arsenale. Ela compõe-se de nove universos distribuídos “em capítulos ou famílias de artistas”. São 120 artistas — sendo 103 estreantes na Bienal — e desembarcaram em Veneza vindos de 51 países. Isso sem contar aqueles que foram escolhidos para representar seus respectivos 85 pavilhões nacionais.

O Brasil, através do Fundação Bienal de São Paulo, trouxe a artista Cinthia Marcelle, com as instalações Chão de Caça, Sinais da Floresta e Cobra Patuá, além do video Nau, realizado em parceria com Tiago Mata Machado. Ela foi articulada, principalmente, ao redor de um piso feito de grade de aço e coberto, parcialmente, de pedras de diferentes formatos e dimensões. As pequenas rochas foram recolhidas nos arredores e “encaixadas naturalmente” nas grilhas, algo que acontece por acaso, quando, por exemplo, uma pedrinha fica presa na sola do sapato ou do tênis e solta-se sozinha durante a andança — e também por uma obsessão.

— Estamos entrando num piso em comum, um pouco desequilibrado. Cada um tem que se organizar aqui dentro, fazer uma leitura. A pedra pode ser uma joia ou é um resto de algo que foi uma arma… A partir disso, outras instalações foram criadas, como uma “cobra” que serpenteia pelo ambiente, outras pedras cobertas com cadarços de sapatos, pedras protegidas como ovos preciosos, várias pinturas listradas de roupas de cama que remetem à grade, à fita. Enfim, são sinais, bandeiras brancas, símbolos de protestos de existências. O filme dá uma chave de acesso para tudo isto. Através dele assistimos a um grupo de pessoas que ocupa um telhado. Elas tiram as telhas. Assim passa-se a ideia de uma revolta em um presídio ou de um naufrágio no qual o teto, no lugar do mastro, é o último a ser abandonado… Aqui temos  um exercício de realizar a liberdade — afirma o alemão Jochen Volz, curador do pavilhão brasileiro.

Ele explica ainda a importância de participar da Bienal:

— A principal motivação de estar aqui é fazer parte de novos teatros. Hoje, o fundamental para um artista é ver a sua obra junto a obras de outros artistas do mundo inteiro, ver estes pontos em comum, de desejos, medos, diálogos e realizações.

O encontro de artistas, colecionadores e galeristas encerra em si um círculo virtuoso. Sobressair-se no cenário internacional, porém, não é uma tarefa simples, pelo contrário. Ponto para Cinthia Marcelle, uma mineira de 43 anos que acabou ganhando a menção honrosa da Bienal pela sua mostra.

 

Brasil representado por artistas como Paulo Bruscky e Erika Verzutti

Mas não basta apenas participar deste evento internacional. A concorrência por uma visibilidade e, principalmente, por um lugar ao sol é muito aguerrida. O maior galerista da Europa, o italiano de Brescia, Massimo Minini, tem uma visão bem clara sobre o percurso que um artista deve cumprir para chegar ao Olimpo:

— Nós trabalhamos com a beleza, as belas artes. Este aqui é um trabalho perfeito para sonhar e mergulhar dentro. Sinto-me nadando em uma piscina colorida — diz ele sobre a enorme instalação de bolas de fibras naturais e sintéticas Escalade Beyond Chromatic Lands, da americana Sheila Hick, uma incansável e alegre senhora nascida em 1934.

O galerista continua:

— Eu trabalho com Daniel Buren e ele continua o mesmo como 40 anos atrás, quando fez a primeira mostra. Acho que a nova geração de artistas tem uma nova forma de trabalhar, mais determinada, provavelmente. Por exemplo, uma vez, um artista tinha diferentes galerias. Hoje em dia, eles tendem a ter apenas um galerista de referência. Certos artistas jovens emergem mais rapidamente do que outros porque são mais atentos. Tornam-se grandes, caríssimos e importantes, mas são menos do que antes. Os outros seguem o mesmo ritmo. Um artista tem que ter sorte, determinação e saber o que quer e conhecer idiomas, fazer um trabalho inovador que diga algo não apenas a ele próprio, mas também a nós que o estamos procurando — afirmou Minini à Comunità, ao final do Arsenale, local que abriga os artistas e as obras eleitas pela curadoria da grande mostra, capitaneada por Christine Macel.

Ali, o Brasil está representado pelo pernambucano Paulo Bruscky e por algumas excelências das artes visuais, como o baiano Ayrson Heráclito, de 49 anos, e Erika Verzutti, de 46 anos. Ela vive e trabalha em São Paulo. A obra, uma enorme Tartaruga, foi realizada com papel machê, polistirolo, estrutura de ferro, bronze, cerâmica e tinta a óleo. Já o carioca Ernesto Neto, nascido em 1964, armou uma enorme tenda. A obra chama-se Um Sagrado Lugar e é constituída de uma grande oca de algodão, com vasos de plantas, cerâmica, bancos, violão e serragem, onde se entra descalço. Ele tem ainda os livros de cura de Una Isi Kayawa, filtro de água com terra e areia, madeira, ripas de compensado, fotografia e desenhos dos índios Huni Kuin (“homens verdadeiros” da tribo Caxinauás), com direito a atos de pajelança nos Jardins para encanto dos visitantes.

O pavilhão da Itália foi curado por Cecilia Alemani e traz artistas como Roberto Cuoghi e Giorgio Andreotta Calò, com andaimes que os visitantes devem seguir por diferentes andares, sem a ideia da profundidade de campo — uma ilusão provocada por um espelho de água posicionado estrategicamente.

— A arte de hoje, diante dos conflitos e supresas no mundo, testemunha a parte mais preciosa da humanidade, num momento no qual o humanismo está ameaçado. Ela é o lugar por excelência da reflexão individual e da liberdade, assim como apresenta questões fundamentais. A arte representa uma alternativa à indiferença — afirma a curadora Christine Macel.

Pode-se ir além, pois, como diria o poeta brasileiro Ferreira Gullar, “a arte existe porque a vida não basta”.

Guilherme Aquino, de Veneza