Pietro 01 EDITORIALDepois da chegada do toscano Américo Vespucci ao Rio de Janeiro, onde fundou a hoje cidade de Arraial do Cabo, em 1503, a vinda do também fiorentino primeiro-ministro Matteo Renzi para a abertura dos Jogos Olímpicos marca uma nova era nas relações entre Itália e Brasil. Distâncias à parte, aos 41 anos, o presidente do Conselho de Ministros mais jovem da história italiana representa uma nova geração e chega num momento de transição política que definirá o futuro brasileiro. E de turbulências políticas os italianos entendem muito bem. A carreira de Renzi se inicia justamente em meio a Operação Mãos Limpas, quando o jovem alimentou sua fome de justiça. Ele mesmo afirma ter buscado estudar direito porque todos os dias via o seu país em dificuldade. “Fizemos regras mais duras contra a corrupção, temos uma autoridade nacional anticorrupção, dirigida por um juiz que trabalhava no caso da máfia Camorra. Fizemos muitíssimo, mas é necessário manter a vigilância e não podemos achar que a legalidade deva ser defendida só por magistrados. Os cidadãos têm que fazer a sua parte”, disse o líder em São Paulo.
Sua fama de incansável entre os políticos europeus mostrou sua forma também por aqui. Com agenda apertada, ele se dividiu em quatro dias entre Rio, Salvador e São Paulo, onde encontrou autoridades de todos os escalões, nacionais e internacionais, e dedicou grande parte para a comunidade italiana, sempre acompanhado de sua esposa Agnese e de Emanuele, um dos três filhos.
Como podemos ver nesta edição, se mostrou todo o tempo disponível e não deixou de tocar em temas sensíveis. Confiante no processo de recuperação do governo brasileiro, ele não esconde sua admiração pelo ex-presidente Lula, a quem considera uma referencia para vários políticos por ter retirado milhões de pessoas da pobreza e acredita que “a história será gentil com ele”. Disse também ter esperança nas autoridades brasileiras para que após as definições em torno da Presidência da República se consiga a extradição do terrorista Cesare Battisti, hoje com status de refugiado no Brasil.
Afirmou ainda que a estabilidade política é o pressuposto para os investimentos econômicos e que todos os que fizeram investimentos aqui acreditam nas perspectivas do país. Pragmático, anunciou missão empresarial para novembro, quando o ministro do Desenvolvimento Econômico Carlo Calenda deverá capitanear um time de empresas de grande potencial para os negócios bilaterais.
Não deixou de lado questões que afligem o mundo, como o terrorismo e a imigração. Lembrou que os últimos atentados foram feitos por pessoas que cresceram na Europa e se radicalizaram e mostrou solidariedade aos refugiados ao dizer que a questão tem de ser gerenciada melhor. “Temos que dar asilo a quem arrisca a vida, repatriar aqueles que não podem permanecer na Europa, fazer acordos de cooperação internacional na África. Os demagogos e populistas na Europa dizem que os terroristas são os refugiados. Não é assim”. E ressaltou a lei italiana que prevê, desde 2015, que, para cada euro investido em segurança e controle militar, deve-se investir € 1 em educação e escolas. “Não podemos viver num estado de polícia. Temos de cuidar da segurança, mas também investir em cultura e diversão. Este será um tema da presidência italiana na reunião do G-7, no ano que vem, na Sicília”.
Sobre o referendo que acontecerá no fim deste ano e busca a mudança na Constituição da Itália, Renzi voltou a dizer que é fundamental reduzir o número de políticos e gerar estabilidade aos governos. “Em 70 anos, a Itália mudou 63 vezes de governo. Finalmente, os italianos poderão reduzir os custos da classe política e ter na Itália um projeto nacional capaz de simplificar a burocracia e reduzir os impostos”.
Na recepção organizada pelo embaixador Antonio Bernardini e pelo cônsul geral Riccardo Battisti, no terraço do Consulado, no centro da cidade do Rio, Renzi cumprimentou a todos os presentes e recebeu uma petição popular que pede para destinar a contribuição dos 300 euros pagos em cada pedido de cidadania para acabar com as filas de espera nos consulados. Foi acolhedor e atencioso e mostrou-se um líder carismático capaz de interagir com plateias nos mais diversos contextos.
Homenageado com o Troféu ComunitàItaliana – que marca a amizade entre os dois países e valoriza os méritos das personalidades que desenvolvem trabalho relevante à cooperação bilateral, à promoção do made in Italy e à difusão da cultura italiana – agradeceu e se despediu com um arrivederci. “Vamos juntos construir esperança e ser capazes de levar nossos valores para o futuro”.

Boa leitura!