Festa de São Vito em contagem regressiva

A um ano do seu centenário, a Festa de São Vito ultrapassa o tempo como um exemplo da importância do acolhimento a imigrantes e um espaço de oportunidades de marketing para marcas.

Prestes a completar 100 anos, a festa de São Vito, considerada uma das maiores comemorações populares italiana realizada fora da Itália, tem a atenção dos seus organizadores voltada para um número um pouco maior: 103. Esta é a quantidade de crianças atendidas pela creche mantida pela Associação Beneficente São Vito Mártir com o dinheiro arrecadado com a venda de ingressos e do consumo. São seis fins de semana ininterruptos de celebrações entre junho e julho, realizadas no Brás, bairro de origem italiana, em São Paulo, que já está em contagem regressiva para o centenário. Uma oportunidade, inclusive, de marketing, para marcas que visam atender o público interessado em produtos italianos.

Mammas de São Vito

“É uma festa que tem seu nome como marca registrada, assim como as “Mammas de São Vito”, principais responsáveis por esse sucesso, que tem como maior objetivo a manutenção da nossa creche”, afirma o vice-presidente da associação, Miguel Gravina, filho do presidente Modesto Gravina Netto, que também herdou do pai o trabalho na entidade. A associação atende gratuitamente as crianças entre 1 e 4 anos em regime de semi-internato, tendo ao longo de 21 anos o registro de mais de 20 mil delas assistidas. Segundo Miguel, a preparação da festa é antes de mais nada um ato de confiança, porque se começa os preparativos sem dinheiro algum. “Tudo é com a certeza (e fé em São Vito!) de que o dinheiro será arrecadado”, diz ele. E o santo não tem falhado, porque a comemoração vem sendo realizada desde 1918.  

Mamas

Matéria da edição 191 da Revista Comunità Italiana sobre a Festa das Mammas

O presidente Modesto Gravina Netto destaca a festa como um ato de agradecimento a São Paulo e ao Brasil por ter recebido os imigrantes italianos. “Ela é realizada pelos descendentes que vieram de Polignano a Mare (cidade da província de Bari, na região italiana da Puglia), e vem ajudando a preservar a gastronomia maravilhosa daquele lugar, a música, a cultura, o dialeto e as lembranças dos poliganeses”, afirma Modesto.

Sobre a Creche CEI

“É principalmente um trabalho por nossa creche, por nossas crianças”, reforçam as mammas, sempre que falam do motivo que as levam a uma rotina exaustiva para atender um total aproximado de 80 mil pessoas que passam pelo local ao longo de todos os finais de semana. Com idades que variam entre 70 e 89 anos, as mammas, todas voluntárias, começam a trabalhar sempre às terças-feiras anteriores a festa. Tudo para darem conta de um volume enorme de preparo que tem as medições dadas em toneladas.

“Sem elas não teríamos nada”, salienta o vice-presidente Miguel, dando exemplos que dimensionam a quantidade de trabalho e de organização: “São cerca de 160 a 170 mil pratos de spaghetti, penne e ricchitelle, 60 mil ficazzelle (uma espécie de pastel), 30 mil ficazze (pizzas mais altas) e 40 mil doces típicos, como os cannoli”. Isso sem contar as mais de 2,5 toneladas de fígado de boi, 5 toneladas de antepasto de berinjela, seis toneladas de farinha de trigo, oito de tomates, seis de cebolas e 6 mil litros de azeite de oliva.

Esforço recompensador

Um esforço que têm total aprovação das novas gerações. “O que os meus avós fazem aqui nem tem o que falar, é um orgulho para a nossa família”, diz emocionada a jovem Marina Gravina Pereira, abraçando com carinho a avó Neide Gravina, mulher do presidente e uma das mammas responsáveis pelos preparos. Aos 19 anos, Marina conta que também já serviu de voluntária. “Agora está um pouco mais difícil por conta da faculdade (Medicina), mas desde bem pequena eu ajudava no atendimento, nem que fosse só para colocar a tortinha no prato e entregar a alguém; aí depois aprendi a contar e passei a ajudar nos cálculos”, lembra.

Para a avó, Neide, não é possível traduzir a satisfação por este reconhecimento dos filhos, netos e da comunidade. Embora seja espanhola de nascimento, ela é uma típica “mamma”, tendo sido completamente conquistada pela causa de preservar a cultura italiana e a manutenção da creche. “Trabalhamos muito aqui por nossas crianças e não poderia estar mais feliz com esta e a próxima festa, a dos 100 anos, quando eu completo 60 de casamento”, comenta Neide, que sempre envolveu todos os três filhos e netos nas comemorações. Hoje, ainda que não possa colaborar tanto, a neta Marina não deixa de participar, ao menos visitando a cantina que fica sempre lotada com tantos visitantes.

Oportunidade para as marcas

Essa quantidade de público deixa as empresas de produtos italianos bem atentas, como a importadora ItaliaMais (www.italiamais.com.br). Representante exclusiva dos vinhos Bocelli (pertencente a vinícola do tenor Andrea Bocelli, da região de Piza), a empresa aproveitou o evento para promover suas bebidas. “Sem dúvida, é uma ótima oportunidade de exposição de marca para pessoas que apreciam bebidas e alimentos italianos”, comenta a responsável pelo marketing da companhia, Vanda Meneguci. Segundo ela, apenas durante os três sábados que foram feitas ações de degustação, a empresa gerou um impacto de marca em um total aproximado de 9 mil pessoas, em uma relação custo-benefício bem eficiente.

E eficiência é o que se vê no trabalho de cada voluntário, como o de Matheus Rodak, que participa da festa e conhece o seu histórico como ninguém (ver box). Muito devoto de São Vito, é ele quem puxa a procissão, sempre antes da abertura da festa, levando a imagem do santo aos voluntários em cada espaço destinado as vendas das comidas e bebidas. “Eu vim trabalhar aqui muito jovem, e hoje depois de 37 anos é impossível deixar de ajudar, primeiro pela devoção a São Vito, depois por esta iniciativa social tão importante para preservação da nossa creche”, comenta.

Cantina da festa

Mas impossível mesmo é resistir a quantidade e variedade de delícias oferecidas. Seja na área da Cantina, onde as pessoas pagam por um menu fechado de R$ 70 (sábado) e R$ 30 (domingo), ou na Praça de Alimentação, onde o ingresso custa R$ 5 para entrar mais o que consumirem, tudo é preparado para dar água na boca. O menu é variado: antepastos de berinjela com pão italiano, as tradicionais massas ao sugo ou a puttanesca, ficazzelle, ficazze e a guimirella (churrasco de fígado e folhas de louro), apreciada até mesmo por quem não gosta de fígado. Sem contar o tradicional molho ou ragú, que é um clássico da festa, aromatizado com basílico fresco e tomates maduros, levado ao fogo por mais de 10 horas.

E não para por aí. De sobremesa, como não experimentar a piccicatella, os amaretti, as castagnelle, a pezza dolce (torta de ricota) e dormosa, canoli, sfogliatella, pastiera di grano, entre outros? Dona Neide nem se incomoda em dar a receita (ver abaixo). Porém, a neta Marina garante: “Não vai ficar igual!”. E acrescenta: “Eu faço, minha mãe faz, todo mundo faz, mas não tem o mesmo sabor do daqui”. Dona Neide ri e diz que o segredo é o amor. Mas talvez o amor de uma mamma da São Vito realmente seja muito maior.

Receita de Molho de tomate

Receita molho de tomate

Ingredientes

1/2 kg de carne bovina moída

1/2 kg de carne suína moída

4 kg de tomate

1 copo de água

1 copo de azeite

4 cebolas cortadas

4 dentes de alho picados

1 colher (sopa) de sal

1 copo de vinho

Manjericão a gosto

Modo de preparo

Selar bem as carnes e adicionar os temperos, refogando bem. Colocar o vinho, depois os tomates já fervidos, batidos no liquidificador e peneirados. Deixa ferver até encorpar. Adiciona-se um galhinho de manjericão.

 

HISTÓRICO

Matheus Rodak relembra o histórico da festa

“A Festa de São Vito Mártir começou em 1918, quando um povo vindo de Bari, de Polignano a Mare, veio morar no Brás. Eles não tinham ainda uma igreja, então começaram a se reunir na rua mesmo. Em 1919, as pessoas que fizeram a primeira festa criaram a Associação Beneficente São Vito a Mare, e logo no ano seguinte conseguiram realizar o sonho de construir a capela para o santo, que abrigou os imigrantes até 1940, quando fizeram uma igreja maior, com estrutura para atender os poliagneses e descendentes que precisavam estudar, precisavam de médicos.

A partir daí, a festa não parou mais, tornando-se um marco. Durante a segunda guerra, outras festas típicas deixaram de ser comemoradas, mas a de São Vito nunca parou. Foi a primeira a ter fogos de artifícios, fazendo com que pessoas viessem de vários lugares do interior de São Paulo. Dos poucos três dias de comemorações, hoje temos uma festa de seis fins de semana, e a mesma forte devoção a São Vito.”

Sobre o padroeiro

São Vito é o padroeiro da cidade de Polignano a Mare, na Puglia. Considerado também o protetor dos artistas, das doenças nervosas, dos jovens e dos dependentes de drogas. O jovem Vito recebeu formação cristã de seus servos Modesto e Crescencia. Por isso foi denunciado pelo próprio pai – Illa, soldado romano, ao Imperador Diocleciano. Sem nunca renunciar à sua fé, Vito foi torturado até a morte, em 15 de junho de 303 D. C., aos 15 anos idade. Seus restos foram enterrados na cidade de Polignano a Mare, e o milagre de suas aparições e curas ganhou devoção no sul da Itália. Trazida pelos imigrantes para a cidade de São Paulo.

Fotos por: Manu Rodrigues

Manu é uma profissional multidisciplinar, com formação em Rádio e TV pela FAPCOM e locução pelo SENAC. Atua como locutora, produtora, câmera e editora de vídeos comerciais. Tem em seu currículo trabalhos para programas como Grandes Nomes da Propaganda e Mídia Play da 89 Adnews. Tudo sem abrir mão da sua carreira como guitarrista na banda Venus Wave.