A lição grega

Domenico

Era possível dedicar-se ao ócio criativo sem morrer de fome porque a Grécia clássica se colocava nas antípodas de nossa atual incivilidade, em que tudo conspira para nos transformar em tubos digestivos e programados para o desperdício e o consumo compulsivo

Em sua famosa reportagem sobre a Guerra do Peloponeso, Tucídides conta: estamos em 430 a.C. e há um ano estourou entre Atenas e Esparta o conflito que duraria quase 30 anos. Os caixões dos primeiros jovens mortos estão alinhados na ágora ateniense, lotada de pessoas em luto. Toma a palavra o grande Péricles para a comemoração fúnebre e faz um discurso que se tornará célebre.
“Chamamo-nos uma democracia porque a cidade é administrada, não por poucos, mas pela maioria. Mas, se, de acordo com a lei, todos são iguais em suas relações privadas, contudo, o homem que, de algum modo se distingue, recebe a preferência na vida pública, não como um privilégio, mas por causa de seus méritos; e, se um homem pode servir ao seu país, a pobreza e a obscuridade não lhe valerão como obstáculos... Sabemos conciliar o gosto pelo belo com a simplicidade e o gosto pelos estudos com a coragem… Nós consideramos que quem das questões políticas não participa é um inútil, e não um ocioso”.
Grande incubador deste modelo grego foi o mar Mediterrâneo. Ali — como nos lembra Braudel —nasceram a urbanística, os templos e os museus; as bibliotecas, os anfiteatros, as termas e as arenas; as festas e as universidades; a gramática e a retórica; o monoteísmo e o monarquismo; a reflexão sobre a vida, sobre a morte e sobre a felicidade humana.
O discurso de Péricles permanece paradigmático por seu modelo clássico de sociedade, que depois seria enriquecido em Roma com a organização imperial de Augusto, o direito de Justiniano e a concepção estética de Adriano, e seria modernizado em Florença com o mecenatismo de Lourenço, o Magnífico, e com a criatividade politécnica de Leonardo e de Michelangelo. Este modelo inventou o indivíduo e a democracia, a audácia disciplinada, a nobreza do ócio criativo compreendido como trabalho intelectual misturado ao estudo e à brincadeira; a arte clássica, renascimental e neoclássica; a exaltação da sensualidade; a atividade mental que se exprime através de novos modos de fazer filosofia, poesia, política, arte, matemática, música, medicina, ética, história, geografia, psicologia, botânica, zoologia, física.
No arco de pouco mais de um século — entre 500 e 372 antes de Cristo — florescem em Atenas gênios insuperáveis, como Ésquilo e Sófocles, Píndaro e Eurípides, Heródoto e Demócrito, Diógenes e Aristófanes, Teofrasto e Xenofonte, Demóstenes, Sócrates, Aristóteles e Platão, Lísipo e Policleto, Fídias, Míron e Praxíteles. Todos estes gênios, cada um em sua disciplina, conferem ao homem um sentido, uma missão e um significado novos. Concebem a ideia temerária de que o homem é mais forte do que o próprio destino, que a grandeza da alma humana pode prevalecer sobre a terra e sobre o céu, que somente o homem, entre todos os seres vivos, é capaz de dar um sentido à sua própria existência e de competir com os deuses do Olimpo, vencendo-os. Enquanto em outros lugares eram os profetas a serem creditados como mediadores entre o céu e a terra, na Grécia era o próprio indivíduo a resolver as coisas diretamente com os deuses, com a natureza e com os próprios semelhantes.
Esta explosão criativa da Grécia deve ser atribuída não somente à presença contemporânea de tantos gênios, mas também a uma feliz série de circunstâncias favoráveis: a forma participativa de sua democracia; as pequenas dimensões das polis; a ampla disponibilidade de escravos a quem confiar funções executivas; a consequente abundância de tempo livre; as estruturas (praças, teatros, templos) pensadas em função da arte e da cultura; uma língua complexa, rica, flexível, musical; o desprezo pelas atividades físicas e executivas em prol das atividades autônomas e intelectuais; a rejeição da corrida pela riqueza material e o desinteresse pelo luxo; a atitude de apreço pelas alegrias simples e genuínas da vida cotidiana ao invés das alienações de uma vida sofisticada; a predisposição e a formação para o belo, para o bom gosto, para a busca da verdade; a preferência pelo procedimento sistemático ao intuitivo; uma educação mirada mais para a ciência e para a arte do ócio criativo do que para o ativismo de afazeres e competitivo.
Se era possível dedicar-se ao ócio criativo sem morrer de fome, era porque a Grécia clássica se colocava nas antípodas de nossa atual incivilidade, em que tudo — da família, à escola e à mídia — conspira para nos transformar em tubos digestivos, em máquinas programadas para o desperdício vistoso, para o consumo compulsivo e insensato.
Objetivo declarado dos governantes, dos filósofos e dos artistas gregos era a felicidade de cada um dos cidadãos e da polis como um todo. A essência da felicidade não consistia em acrescentar coisas inúteis à inútil intromissão das inutilidades que já possuímos, mas consistia, como dirá Dewey muito mais tarde, em enriquecê-las de significados através da educação.
Este modelo clássico, que alimentou a mente de Galileu, Shakespeare, Voltaire, Dante, Cervantes e Goethe, também formou milhões de jovens em todo o planeta, tornando-os conscientes do pensamento de Aristóteles segundo o qual “o negócio em vista do ócio e as coisas necessárias e úteis têm por fim as coisas belas”.

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